Para muitas mulheres, a dor não começa de repente: ela se repete. Vai e volta todos os meses, às vezes mais intensa, às vezes silenciosa, mas sempre presente. Com o tempo, o que deveria ser um sinal de alerta acaba sendo tratado como algo “normal”. Mas não deveria ser assim.
A endometriose é uma condição que ainda leva anos para ser diagnosticada, enquanto muitas mulheres seguem convivendo com dor, desconforto e impactos na qualidade de vida, muitas vezes sem saber o que está por trás desses sintomas.
Segundo a Sociedade Brasileira de Endometriose e Cirurgia Minimamente Invasiva (SBE), cerca de 1 em cada 10 mulheres no Brasil vive com endometriose. Além disso, 57% das pacientes apresentam dor crônica, um dado que reforça o quanto esse sofrimento é frequente e, ainda assim, frequentemente negligenciado.
Apesar disso, a realidade está mudando. O Sistema Único de Saúde (SUS) tem registrado um aumento significativo nos atendimentos na atenção primária relacionados ao diagnóstico da endometriose. De 2022 a 2025, o crescimento foi de aproximadamente 76,24%, refletindo uma ampliação da demanda nos serviços de saúde.
Entender o que é a endometriose, reconhecer seus sintomas e saber quando investigar são passos importantes para mudar essa realidade. Continue a leitura e descubra mais sobre essa doença.
O que é endometriose?
A endometriose é uma condição em que um tecido semelhante ao endométrio, que normalmente reveste o útero por dentro, cresce fora do lugar.
Esse tecido pode se desenvolver em regiões como ovários, trompas, intestino ou outras áreas da pelve. E, assim como o endométrio, ele responde aos hormônios do ciclo menstrual.
O problema é que, fora do útero, esse tecido não tem para onde ir. Isso pode causar inflamação, dor e, em alguns casos, a formação de aderências (quando órgãos “grudam” uns nos outros).
A endometriose pode se manifestar de diferentes formas. A classificação leva em conta a localização e a profundidade do tecido endometrial fora do útero, sendo os principais tipos: endometriose peritoneal superficial, endometriose ovariana (endometrioma e endometriose infiltrativa profunda.
Por que a endometriose ainda demora a ser diagnosticada?
O diagnóstico da endometriose ainda pode levar tempo: em média, cerca de sete anos entre o início dos sintomas e a confirmação da doença.
Um dos principais motivos é a normalização da dor. Muitas mulheres crescem ouvindo que sentir cólica intensa é “parte do ciclo”, o que faz com que sintomas importantes sejam ignorados por elas e, muitas vezes, até em atendimentos de saúde.
Além disso, a endometriose pode se manifestar de formas diferentes. Essa variedade pode confundir e atrasar a investigação. O resultado é um longo caminho até o diagnóstico. Durante esse tempo, a dor pode se tornar crônica, impactar a rotina, o trabalho, as relações e a saúde emocional. Reconhecer que essa dor não é normal é um passo essencial para encurtar esse percurso.
Sintomas de endometriose: o que não deve ser considerado normal
Nem sempre os sinais aparecem de forma evidente. Muitas vezes, surgem aos poucos e acabam sendo vistos como “parte da rotina”. Mas alguns sintomas merecem atenção, especialmente quando são frequentes ou intensos:
- Cólicas intensas;
- Dor pélvica recorrente;
- Dor durante a relação;
- Alterações intestinais ou urinárias;
- Dificuldade para engravidar.
Cólica forte não é normal: quando investigar
Mais do que quais são os sintomas, é importante observar como eles afetam você.
Vale investigar quando a dor:
- interfere na sua rotina ou limita atividades do dia a dia.
- piora com o tempo ou não melhora com medidas habituais.
- aparece fora do período menstrual.
- exige uso frequente de medicamentos para alívio.
Se a dor impacta sua qualidade de vida, esse já é um sinal suficiente para buscar orientação médica.
Como é feito o diagnóstico da endometriose
O diagnóstico começa pela escuta. Entender os sintomas, sua frequência e intensidade é um passo essencial para direcionar a investigação.
A partir disso, o médico pode solicitar exames de imagem, como a ultrassonografia pélvica (especialmente com preparo intestinal) e, em alguns casos, a ressonância magnética. Esses exames ajudam a identificar a presença, a localização e a extensão das lesões, orientando a melhor conduta.
Em situações específicas, pode ser indicada a videolaparoscopia, um procedimento minimamente invasivo que utiliza uma câmera e instrumentos introduzidos por pequenas incisões no abdômen. Além de auxiliar no diagnóstico, ela também pode ser utilizada no tratamento da endometriose e de outras condições ginecológicas.
Ultrassonografia pélvica de mapeamento para endometriose
A ultrassonografia pélvica com mapeamento é um exame de imagem mais detalhado, usado para investigar a presença e a extensão da endometriose. Diferente do ultrassom comum, ele busca identificar não só os órgãos, mas também possíveis focos da doença e áreas de aderência.
O exame pode ser feito por via transvaginal e, em alguns casos, com preparo intestinal prévio (como uso de laxantes ou dieta específica), o que ajuda a visualizar melhor regiões como o intestino.
Durante o procedimento, o profissional avalia estruturas como útero, ovários, ligamentos e parte do intestino, observando sinais sugestivos de endometriose, como nódulos ou alterações nos tecidos.
Apesar de ser um exame mais minucioso, ele costuma ser rápido e bem tolerado. Pode causar um leve desconforto, especialmente se houver dor na região, mas não é invasivo. Esse tipo de ultrassonografia é um aliado importante na investigação, ajudando no diagnóstico e no planejamento do tratamento mais adequado.
Por que o diagnóstico precoce faz diferença
Identificar a endometriose o quanto antes pode mudar completamente o percurso da doença. Com o diagnóstico precoce, é possível iniciar o tratamento adequado, controlar a progressão e reduzir o impacto dos sintomas, especialmente a dor, que muitas vezes compromete a rotina e o bem-estar.
Além disso, a endometriose pode afetar a fertilidade. Estima-se que mais de 30% dos casos estejam associados à infertilidade, o que reforça a importância de investigar os sinais desde cedo.
Quanto antes houver clareza sobre o que está acontecendo, maiores são as chances de preservar a qualidade de vida, planejar o futuro reprodutivo com mais segurança e evitar anos de sofrimento desnecessário.
Endometriose tem tratamento?
Sim, a endometriose tem tratamento — e ele é individualizado, de acordo com os sintomas, a extensão da doença e os objetivos de cada mulher.
O tratamento da endometriose pode começar mesmo sem confirmação por exames, já que o diagnóstico muitas vezes é clínico. Diante de sintomas típicos, a equipe de saúde pode iniciar o cuidado para aliviar a dor e melhorar a qualidade de vida.
De forma geral, as abordagens podem incluir controle hormonal, uso de medicamentos para alívio da dor e, em alguns casos, cirurgia para remoção das lesões.
Se não há desejo de engravidar no momento, o tratamento costuma focar no controle da dor e na desaceleração da doença, geralmente com terapia hormonal (como anticoncepcionais, progestágenos ou DIU hormonal) e medicamentos para alívio dos sintomas. Já quando há desejo de engravidar, a abordagem é ajustada para preservar a fertilidade e favorecer a concepção, com acompanhamento especializado.
Endometriose tem cura?
O acompanhamento médico é essencial para ajustar o tratamento ao longo do tempo e garantir o melhor controle possível dos sintomas. Embora nem sempre haja uma “cura definitiva”, é possível conviver com mais qualidade de vida quando a condição é reconhecida e acompanhada de forma adequada.
Dia Internacional da Luta Contra a Endometriose: informação que transforma
O Dia Internacional da Luta Contra a Endometriose (7 de maio) é um momento importante para dar visibilidade a uma condição que ainda é cercada por desinformação e, muitas vezes, silêncio.
Falar sobre endometriose é ajudar mais mulheres a reconhecerem seus sintomas, entenderem que a dor não deve ser normalizada e buscarem orientação sem culpa ou demora.
A informação tem um papel essencial nesse processo. Quanto mais se fala sobre o tema, maiores são as chances de reduzir o tempo até o diagnóstico e transformar a experiência de quem convive com a doença. Porque quando a dor deixa de ser invisível, o cuidado pode começar.
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